O automóvel deslizava incólume pela via molhada. Nenhuma vibração. Nenhum som estranho. A perfeição lhe entreterá os nervos mais tarde quando for dormir e sentir que a ansiedade provocada por tais momentos é maior que um tranqüilizante para dormir. Uma perfeição que o impelia a acelerar cada vez mais, grudando todos os dedos no volante revestido em couro fino. A mulher ao seu lado se deixava cair e quase adormecer sem os sapatos de bico fino, repousando suas raríssimas rugas ao som de melodia conhecida, composta pelo próprio homem que dirige o carro, seu marido. Ela ainda se lembra da garrafa caída no tapete e da agitação do marido entre a folha pautada e o piano gigantesco no canto da sala e o cinzeiro instável na mesinha ao lado.
A mulher abriu de leve os olhos e pôs-se a observar os movimentos do marido que, embebido na madrugada e em roupa de gala, parecia reger sua própria música com movimentos lentos e compassados do volante. As luzes oriundas de postes, somadas à velocidade imposta pelo carro, ajudavam a marcar o ritmo da danação. Vum – vum – vum – vum – vum. Apaixonada, levantou um pouco a saia, mostrando bom pedaço das magníficas coxas morenas e tentou adivinhar alguma reação do homem ao volante. Ele mordiscava os próprios lábios, não em reação à provocação da mulher, mas porque estava tão concentrado que seria capaz de mordiscar também cada centímetro da atmosfera que o envolvia.
Então, em atitude de mulher desprezada e em leves movimentos de bailarina aposentada, levou a ponta dos dedos aos cabelos do marido. As grandes clareiras que ele possuía na fronte não impediram a mulher e seus olhos esgazeados de percorrer com os dedos tépidos toda a cabeleira do homem ao seu lado. Assim, o pianista só conseguiu esboçar reação previsível. Reação muito diferente de sua música e do seu comportamento perto de outros gênios e malucos que o rodeavam em festas como a que acabara de terminar.
Antes, tenso, à frente de tanta magnificência e perfeição, achou que nada seria capaz de lhe tirar daquele transe wagneriano. E eis que lhe surge uma Valkyria, a mais bela de todas, sua própria mulher, para lhe fazer acordar, diminuir a velocidade e deixar-se recostar, ainda com atenção na via, em seu próprio universo, que, obviamente, não deixava de ser menos maravilhoso que a rua, as luzes, o macio do volante, seu pé descendo e adentrando cada vez mais o motor, exigindo da máquina tudo o que havia para oferecer em movimentos rítmicos e lubrificados por toda a sorte de fluídos aditivos próprios para o motor, e ele ainda não parecia perceber que seu universo podia ser mesmo tudo isso.
Ao chegar em casa, o homem desceu primeiro do carro, correu para a copa e engoliu rapidamente seu remédio para dormir acompanhado de um cálice de Chianti. A mulher, que vinha desconsolada do carro, trazia os dois casacos e disse lenta e tristemente que subiria agora, pois precisava de um banho. Ele, entretido com a garrafa do vinho, disse que sim com a cabeça, sem pronunciar palavra, sem deixar que ela soubesse sua resposta.
Em silêncio, esperou que mulher tomasse banho e deitasse perplexa com o calor do próprio corpo, para subir, tirar sem cerimônias sua vestimenta de gala e vestir um pijama puído, porém muito confortável. Deitou-se com muito cuidado, imaginando que a mulher nem perceberia sua presença e virou-se para o outro lado já com os olhos cerrados.
Sozinho outra vez, pensou que amanhã, inspirado pelos acontecimentos recentes, comporia algo excitante e improvável, cheio de maneirismos e pinceladas muito distintas de estilo próprio. Quem sabe uma rapsódia sobre uma italiana que se preocupava demais com os problemas do mundo? Podia até fechar os olhos e ver a italianinha de lábios vermelhos sentar ao pé de uma parreira e sozinha chorar a fome na África.
Como a ardente italiana, sua mulher também derramava lágrimas silenciosas do outro lado do colchão.